Residência na Ilha das Galinhas - Arquipélago dos Bijagós 

Entre 17 de Fevereiro e 3 de Março, foi feita uma residência de pesquisa e criação do projecto "Ilhas - uma constelação", com passagem pelo Arquipélado dos Bijagós - Guiné Bissau, um arquipélago com áreas protegidas de Parque Natural que pertencem às reservas da biosfera. Através de uma residência independente, organizada pela Anabela Mendes, Anabela Mendes - germanista e professora doutorada do Departamento de Estudos Germanísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

houve uma estadia na Ilha das Galinhas, ilha onde podemos 

fez uma viagem até às Ilhas Selvagens, uma reserva natural integral, em Junho de 2021 através do projecto Sabotagem, um projeto de criação, experimentação e investigação artística. Este projecto é  desenvolvido pela Agência 25, em colaboração com as artistas-residentes-sabotadoras: Beatriz Garrucho, David Marques, Emilie Jacomet a.k.a Jack, Sara Anjo e Sofia Dias & Vítor Roriz. Consiste em abrir a conta de Instagram da Agência 25 a estas artistas, que durante um mês a utilizam em residências online para partilharem processos de pesquisa. É um projeto que surgiu da vontade de provocar, testar e refletir sobre a investigação enquanto objeto artístico.

Abaixo uma parte do processo de residência com uma viagem às Ilhas Selvagens.

 

"Islands - a constellation" went on a trip to Selvagens Islands, a nature reserve, during June 2021. This trip was made through the project Sabotage. A project of artistic creation, experimentation and investigation, developed by Agência 25, in collaboration with resident-saboteur-artists: Beatriz Garrucho, David Marques, Emilie Jacomet a.k.a Jack, Sara Anjo and Sofia Dias & Vítor Roriz. It consists of opening Agência 25's Instagram account to these artists, who use it in online residencies for a month to share research processes. It is a project that arose from the desire to provoke, test and reflect on research as an artistic object.

Below a part of the residency process with a trip to Selvagens Islands.

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Viagem às Selvagens

Vou numa viagem relâmpago até às Ilhas Selvagens,  acompanhada pelos vigilantes da natureza, polícia marítima e exército da marinha. Somos 3 mulheres a bordo, a “imediata”, a enfermeira e eu, a menina que vem fazer umas gravações. Da restante tripulação perdi a contagem.

 

Levo comigo o livro as Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão que começa dizendo: “enquanto a gente vê terra, não tira os olhos - não pode - dum resto de areal, dum ponto violeta que desmaia e acaba por desaparecer na crista duma vaga. Um ponto e acabou o mundo. O nosso mundo agora é outro. Durante um momento calamo-nos todos a bordo.”

02

Autorização do Capitão de Mar e de Guerra

Para visitar as Ilhas Selvagens, um dos territórios mais remotos de Portugal, só é possível com barco próprio ou fazendo viagem no barco da marinha que lá vai de 15 em 15 dias para render os vigilantes da natureza e os polícias marítimos que lá estão. Para ir é sempre necessário pedir autorização.

Na 3º vez que pedi, passado 1 ano e meio o Comandante de Mar e de Guerra, responsável pela zona marítima da Madeira autorizou.

Assim e mbarquei no navio patrulheiro da marinha -  Mondego, para uma viagem de 15h para chegar à Selvagem Grande.

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03

Arco-íris duplo à chegada da ilha

Pelas 7h da manhã quando se começava a avistar a Selvagem Grande, abriu-se no céu o arco-íris, este fenómeno encantado.

Em várias culturas o arco-íris representa uma transformação simbólica da vida, uma ponte entre a terra e o céu. E de facto a sensação à chegada é de uma travessia para fora da terra, pois estas ilhas remotas, foram chamadas de “Selvagens” por serem “hermas e desconversaveis assi de navegação como de gente.” como disse Gaspar Frutuoso.

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Chegada ao palco

A Selvagem Grande é uma ilha formada por um planalto ou platô, uma superfície alta e plana que parece um palco natural! Lá em cima “entrei em cena”!

Como não há marcos geodésicos, ponto cartográficos para nos situarmos, mas sim um marco astronómico, a orientação é a das estrelas.

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Uma dança quieta

Vesti o meu “onesie”, um fato ainda dos tempos da escola e fiz uma dança pequena e quieta, tentando tornar-me semelhante à vegetação herbácea que aqui vive! Apesar destas ilhas se chamarem “Selvagens” o seu ambiente, a sua vida é contrariamente ao nome, bem serena e quieta.

Fez-me lembrar a canção tradicional dos Açores:

“Eu fui à terra do Bravo

Bravo meu bem

Para ver se embravecia

Cada vez fiquei mais manso…"

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Selvagens - reserva natural

Estas ilhas são santuários de pássaros, sobretudo aves marinhas que são os seus principais habitantes juntamente com a osga endémica de cá e as lagartixas.

Nesta altura do ano, de nidificação, há centenas de ninhos de cagarras. A cada passo há um ninho, o que torna surpreende a força de uma terra que tem pouca presença de ser humano.

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Nas vésperas de partir da ilha mais um arco-íris

Muitos azuis, muitas águas. Tons intensos neste ar em movimento que engolem o som. Engolem o mundo numa explosão de ar e água. Como diz Raul Brandão nas “Ilhas Desconhecidas”: envolve o mundo uma pasta de algodão em rama, um vapor incorpóreo que apaga as cores, imobiliza a paisagem e faz do mar atmosfera.

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Islomania

Vou de regresso, mas por mim ficava.

Islomania dizem ser uma doença agradável, onde existe uma obsessão por ilhas.

Não sei se sofro deste mal suave, mas tenho, de certo, uma fixação por ilhas. Nasci numa e esta natureza insular entranhou-se-me no corpo logo à partida.

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Golfinhos do Atlântico

Almariada é uma coisa, náusea é outra! No regresso o mar está invulgarmente calmo, como dizem os vigilantes da natureza que normalmente apanham viagens com o mar bem bravo. No entanto, tive uma súbita náusea que me fez fugir para o convés do barco. Enquanto recuperava, qual não foi a surpresa de ver um grupo de golfinhos! Há quem diga que simbolizam protecção e ou representam o guia. Assim o seja.